Resposta rápida
O sigilo é um dever do psicólogo, previsto no Código de Ética Profissional (Resolução CFP nº 010/2005), e vale também no atendimento online, regulado pela Resolução CFP nº 9/2024. O profissional deve proteger o que ouve e informar os recursos tecnológicos usados. A pessoa atendida também ajuda, escolhendo um lugar reservado, usando fones e cuidando do dispositivo.
Falar de assuntos íntimos por vídeo, de casa, levanta uma pergunta natural: será que ninguém mais vai ouvir? A preocupação é comum entre quem pensa em começar a terapia online e merece uma resposta clara.
Este texto explica o que é o sigilo profissional, o que a regulamentação diz, o que o psicólogo pode e não pode revelar e quais cuidados práticos ajudam a proteger a conversa. É um conteúdo informativo e não substitui a orientação do seu profissional ou do conselho de psicologia.
O que é o sigilo profissional?
Sigilo é o dever de não revelar a terceiros o que foi contado durante o atendimento. O Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP nº 010/2005, estabelece que é dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional para proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas atendidas.
Na prática, isso vale para o conteúdo das sessões e também para os registros feitos pela profissional. Ter sigilo não é um favor, é uma regra da profissão, e existe justamente para que a pessoa possa falar com liberdade.
O sigilo vale na terapia online?
Sim. O atendimento psicológico por meios digitais é regulado pela Resolução CFP nº 9/2024, que substituiu as regras anteriores, de 2018 e 2020. Segundo o CRP-12, a responsabilidade de garantir o sigilo das informações é da profissional, nos termos do Código de Ética.
A resolução também trata de cuidados específicos. Ela prevê que o psicólogo avalie as condições tecnológicas de confidencialidade e privacidade das informações e que, no contrato de serviços, especifique os recursos tecnológicos usados para garantir o sigilo e informe a pessoa atendida sobre eles. O contrato pode ser escrito ou verbal.
- A profissional é responsável por proteger as informações do atendimento.
- Os recursos tecnológicos usados devem ser informados no contrato.
- O psicólogo deve avaliar se o formato online é adequado ao caso.
- Os registros do atendimento também ficam protegidos pelo sigilo.
O que o psicólogo pode e não pode revelar?
Como regra, o psicólogo não conta a ninguém o que ouve em sessão, nem a familiares, nem a empregadores, nem a outros profissionais, a não ser com autorização da pessoa atendida. Se você tem dúvida sobre o que pode ou não ser compartilhado, pergunte à profissional logo no início.
O Código de Ética prevê exceções limitadas. Em caso de conflito entre o dever de sigilo e outros princípios fundamentais da profissão, ressalvados os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra do sigilo, baseando a decisão na busca do menor prejuízo. Quando isso ocorre, a revelação deve se limitar às informações estritamente necessárias.
- Não pode: comentar o caso com pessoas que não participam do atendimento, sem autorização.
- Não pode: usar o que ouviu para fins que não sejam o cuidado e o trabalho combinado.
- Pode, em situações excepcionais: quebrar o sigilo quando a lei prevê ou para evitar um prejuízo maior, revelando só o necessário.
- Pode, com sua autorização: trocar informações com outro profissional que cuide de você, como um médico.
Quais cuidados você pode ter em casa?
O CRP-12 lembra que o ambiente virtual também exige cuidados da própria pessoa atendida com a sua segurança. Alguns hábitos simples fazem diferença e dependem só de você.
- Local reservado: escolha um cômodo com porta fechada ou um momento em que a casa esteja mais vazia. Se isso for difícil, avise a psicóloga; ela pode ajudar a pensar em alternativas.
- Fones de ouvido: reduzem a chance de alguém escutar a voz da profissional.
- Som ambiente: um ventilador ou uma música baixa do lado de fora da porta pode ajudar a abafar a conversa.
- Dispositivo seguro: use um aparelho com senha, atualizado e que só você acesse, de preferência.
- Rede de internet: prefira sua rede doméstica a redes públicas ou compartilhadas.
- Notificações: desative alertas que possam exibir mensagens na tela durante a sessão.
- Gravação: combine com a psicóloga antes de gravar áudio ou vídeo, e evite compartilhar prints ou trechos da sessão.
E as plataformas, os aplicativos e os registros?
A escolha da plataforma de videochamada faz parte da responsabilidade do profissional, que deve explicar o que usa. Pergunte, na primeira conversa, qual ferramenta será utilizada, como os arquivos e as mensagens são guardados e se o contato por aplicativos de mensagem é usado apenas para combinar horários.
Evite tratar assuntos sensíveis em grupos, redes sociais ou em canais compartilhados com outras pessoas. Para a pessoa, o cuidado é o mesmo que se tem com dados de saúde em qualquer ambiente: pensar antes de enviar e para quem enviar. Se tiver dúvida sobre como as informações são tratadas, converse sobre isso. A Resolução CFP nº 9/2024 também trata do cuidado ético com dados sensíveis e com a relação deles com o sigilo profissional.
- Pergunte qual plataforma será usada e como o acesso é feito.
- Combine como os horários e os links serão enviados.
- Peça esclarecimentos sobre como os registros são guardados.
- Avise se o dispositivo for compartilhado com outras pessoas.
O sigilo e o trabalho na TCC
A terapia cognitivo-comportamental costuma incluir registros e exercícios entre as sessões. Segundo o NHS, a pessoa pode ser convidada a anotar o que aprendeu e o progresso em uma ficha ou diário. Esses materiais são seus, e vale guardá-los em um lugar seguro, como qualquer outro registro de saúde.
Ao compartilhar esses registros com a psicóloga, converse sobre a forma de envio e sobre o armazenamento. O NHS informa que a TCC pode ser feita por telefone ou online, e a terapia online mantém o mesmo compromisso ético com o sigilo.
- Guarde seus registros em local seguro, físico ou digital.
- Combine com a psicóloga como enviar fichas e exercícios.
- Evite deixar anotações visíveis para outras pessoas da casa.
- Se algo o(a) deixar inseguro(a), converse sobre isso na sessão.
Quando procurar ajuda profissional
A preocupação com sigilo não precisa ser um motivo para adiar a busca por cuidado. Se o receio é grande, converse com a psicóloga logo no primeiro contato; explicar como o sigilo funciona é parte do trabalho. Procure um psicólogo ou psicóloga quando o sofrimento atrapalha o sono, o trabalho ou as relações. Em alguns casos, a avaliação médica também é necessária. No SUS, o acolhimento pode começar na unidade básica de saúde ou em um CAPS.
- Medo de que outras pessoas descubram que você faz terapia.
- Falta de um lugar reservado em casa para as sessões.
- Dúvidas sobre a plataforma ou sobre os registros do atendimento.
- Sofrimento que dura semanas e atrapalha a rotina.
- Pensamentos de morte ou de se machucar.
Perguntas frequentes sobre sigilo profissional
O psicólogo pode contar o que eu falei para minha família?
Não, a não ser com a sua autorização. O sigilo é um dever do profissional. O Código de Ética prevê exceções limitadas, que dependem da lei ou de situações excepcionais, e nelas só se revela o estritamente necessário.
A terapia online é tão sigilosa quanto qualquer outra?
O dever de sigilo é o mesmo. O atendimento online é regulado pela Resolução CFP nº 9/2024, que exige cuidado com a confidencialidade e a privacidade das informações. A pessoa atendida também contribui, escolhendo um ambiente reservado.
Posso gravar a sessão?
O ideal é combinar com a psicóloga antes. Gravações e prints podem expor informações sensíveis, por isso vale conversar sobre o assunto e decidir juntos.
E se eu não tiver um lugar privado em casa?
Avise a psicóloga. Opções como fones, outro horário, outro cômodo ou até um ambiente fora de casa podem ajudar. O objetivo é que você consiga falar com tranquilidade.
Os registros do atendimento também são sigilosos?
Sim. O Código de Ética e a Resolução CFP nº 9/2024 ligam o cuidado com as informações registradas ao sigilo profissional. Você pode perguntar à psicóloga como os registros são guardados.
Fontes e referências
- Conselho Regional de Psicologia — Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005)
- CRP-12 — Atendimento psicológico on-line (Resolução CFP nº 09/2024)
- LegisWeb — Resolução CFP nº 9, de 18/07/2024 (texto da norma)
- NHS (Reino Unido) — Cognitive behavioural therapy (CBT)
Este texto é informativo e foi escrito pela psicóloga Elane Cruz (CRP-03/21274). Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individualizado. Em caso de dúvida sobre sua saúde, procure um profissional.


