Vergonha e preconceito

Vergonha de procurar terapia: o que pesa e como começar sem pressão

Composição abstrata de peças de quebra-cabeça nas cores da marca, em tons de ameixa, âmbar e lilás

Resposta rápida

Sentir vergonha de procurar terapia é comum e costuma ter origem no preconceito, no medo de ser julgado(a) e na ideia de que o problema é pequeno demais. Terapia não é só para casos graves e não exige diagnóstico. Segundo o NHS, não é preciso ter uma condição diagnosticada para fazer terapia de conversa. O primeiro passo pode ser apenas uma conversa.

Você pensa em procurar ajuda, abre o aplicativo de mensagens e fecha de novo. Passa pela cabeça: “o que vão pensar de mim?”, “será que estou exagerando?”, “tem gente em situação pior”. Essa hesitação é mais comum do que parece.

Este texto fala dos motivos que costumam alimentar a vergonha, de por que eles não precisam decidir a sua história e de como começar de um jeito mais leve. É informativo e não substitui o acompanhamento profissional, nem pretende convencer ninguém a fazer algo antes de se sentir pronto(a).

Por que dá vergonha procurar terapia?

A vergonha raramente surge do nada. Ela costuma vir de mensagens aprendidas ao longo da vida, como “isso passa sozinho”, “é frescura”, “tem que ser forte” ou “problema da cabeça é para os fracos”. Quem cresceu ouvindo isso pode acabar repetindo as mesmas frases para si.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que muitas pessoas com transtornos mentais enfrentam estigma, discriminação e violações de direitos. A mesma nota informa que a maioria das pessoas com transtornos mentais não tem acesso a cuidado eficaz. Isso ajuda a lembrar que a dificuldade de buscar ajuda não é uma falha pessoal: ela tem relação com o contexto em que vivemos.

“Terapia não é coisa de louco”: de onde vem essa ideia?

Durante muito tempo, falar de saúde mental era associado apenas a situações extremas. Essa imagem ainda aparece em conversas e em piadas, e acaba afastando quem tem sofrimentos comuns e importantes, como ansiedade, tristeza, luto, sobrecarga ou dificuldades de relacionamento.

Hoje, a psicoterapia é entendida como um espaço de cuidado, em que a pessoa conversa com uma profissional habilitada sobre o que sente e pensa. O NHS descreve as terapias de conversa como tratamentos para muitos problemas de saúde mental, que envolvem falar com um profissional treinado sobre pensamentos, sentimentos e comportamentos. Não é preciso estar em crise para isso.

  • Procurar terapia é uma forma de cuidar da saúde, como ir ao médico.
  • Ninguém precisa “chegar ao fundo do poço” para ter direito a apoio.
  • A terapia pode ser buscada também para entender-se melhor, não só para tratar sofrimento.

“Meu problema é pequeno” ou “tem gente pior”: isso vale?

Comparar o seu sofrimento com o de outras pessoas parece humilde, mas costuma funcionar como uma forma de adiar o cuidado. Sofrimento não é uma competição, e o fato de existirem situações mais graves não torna a sua menos real.

O NHS informa que, para muitos problemas, como ansiedade e depressão, a pessoa pode se encaminhar sozinha ao serviço de terapia de conversa, e que não é necessário ter um diagnóstico. Um bom critério é observar o efeito do que você sente: se atrapalha o sono, o trabalho, os estudos ou as relações, merece atenção, seja “grande” ou “pequeno”.

E o medo de ser julgado(a)?

O receio de ser julgado(a) pela psicóloga é frequente, e também pelo que a família ou o trabalho vão pensar. Sobre a primeira, vale saber que o trabalho da psicóloga é acolher e compreender, e que o Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece o dever de sigilo, para proteger a intimidade das pessoas atendidas.

Sobre os outros, a decisão de contar ou não é sua. Muita gente prefere manter a terapia em reserva no começo, e isso é legítimo. Na terapia online, há ainda a praticidade de fazer as sessões de onde você estiver, o que ajuda quem se sente exposto(a) ao ir a determinados lugares. Se tiver preocupações com privacidade, converse sobre elas logo no início.

Como começar sem pressão?

Começar não precisa ser um grande passo. Pode ser uma conversa curta, para tirar dúvidas, conhecer o jeito de trabalhar e sentir se há afinidade. Ninguém é obrigado a continuar depois dela.

  • Escreva o que está pesando, mesmo em poucas palavras, para facilitar a primeira conversa.
  • Pergunte antes de decidir: como são as sessões, quanto tempo dura cada uma, como funciona o sigilo.
  • Comece pelo que for mais fácil: uma mensagem, uma pergunta, uma conversa curta.
  • Escolha um horário e um lugar tranquilos para as primeiras sessões.
  • Conte com uma pessoa de confiança para saber que você deu o primeiro passo, se isso ajudar.
  • Permita-se ir no seu ritmo: você não precisa contar tudo logo de início.

Como a TCC olha para a vergonha

A terapia cognitivo-comportamental parte da ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam. Pensamentos como “vão me achar fraco(a)” ou “é exagero meu” podem aumentar a vergonha e levar ao adiamento. Segundo o NHS, a TCC ajuda a questionar pensamentos e crenças pouco úteis e a considerar outras formas de ver as situações.

Isso é feito com cuidado, no ritmo da pessoa, e sem a intenção de convencer de nada. O NHS informa que a TCC pode ser feita por telefone ou online, e a terapia online oferece uma entrada mais discreta para quem se sente inseguro(a) com o primeiro passo.

  • Identificar os pensamentos que alimentam a vergonha.
  • Examinar o quanto esses pensamentos se sustentam nos fatos.
  • Testar, aos poucos, novas atitudes, como fazer uma pergunta ou pedir ajuda.
  • Respeitar o ritmo e os limites de cada pessoa.

Quando procurar ajuda profissional

Vale procurar um psicólogo ou psicóloga quando o que você sente dura semanas, atrapalha o sono, o trabalho ou as relações, ou quando a vergonha e o medo de julgamento estão fazendo você adiar o cuidado. Em alguns casos, a avaliação médica também é necessária. No SUS, o acolhimento pode começar na unidade básica de saúde, e o atendimento em um CAPS pode ser iniciado por escolha própria, segundo o Ministério da Saúde.

  • Sofrimento que se repete ou piora com o tempo.
  • Isolamento por medo de que os outros descubram ou julguem.
  • Dificuldade de dormir, de se concentrar ou de manter a rotina.
  • Sensação de estar sozinho(a) com o problema.
  • Pensamentos de morte ou de se machucar.

Perguntas frequentes sobre vergonha e preconceito

É normal ter vergonha de procurar terapia?

Sim. Muita gente sente isso, por causa do preconceito e do medo de ser julgada. A OMS reconhece que o estigma afeta pessoas com transtornos mentais. Sentir vergonha não impede você de buscar apoio, quando se sentir pronto(a).

Terapia é só para quem tem um problema grave?

Não. Terapia também é procurada por quem passa por mudanças, perdas, ansiedade, sobrecarga ou quer se conhecer melhor. Segundo o NHS, não é preciso ter diagnóstico para fazer terapia de conversa.

E se eu achar que meu problema é pequeno demais?

Se o que você sente atrapalha seu dia a dia, merece atenção. Comparar-se com outras pessoas não mede o seu sofrimento. Uma conversa inicial ajuda a entender se e como a terapia pode ser útil.

A psicóloga vai me julgar?

O trabalho da psicóloga é acolher e compreender. O Código de Ética prevê o dever de sigilo e o respeito à intimidade da pessoa atendida. Se algo incomodar, você pode conversar sobre isso ou procurar outro profissional.

Preciso contar para alguém que estou fazendo terapia?

Não. A decisão é sua. Muitas pessoas preferem manter a terapia em reserva no início. Você pode contar quando e para quem se sentir à vontade.

Fontes e referências

Este texto é informativo e foi escrito pela psicóloga Elane Cruz (CRP-03/21274). Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individualizado. Em caso de dúvida sobre sua saúde, procure um profissional.

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