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Na adolescência, é comum perguntar “quem eu sou?”. Mudanças no corpo, a pressão dos colegas, a autoestima e as dúvidas sobre gostos, orientação e futuro fazem parte da construção da identidade. Escutar com respeito, sem rotular nem apressar definições, ajuda. Quando o sofrimento persiste, a psicoterapia pode oferecer um espaço de apoio.
Num mês o adolescente muda o estilo de roupa, no outro troca de turma de amigos. Às vezes, afirma com certeza o que quer ser; em outros momentos, diz que não sabe de nada. Para quem está de fora, parece instabilidade. Para quem vive, pode ser uma pergunta enorme: “quem eu sou, afinal?”.
Este texto fala dessa busca, de como a pressão do grupo e a autoestima entram na história, de como acolher dúvidas sobre gostos, orientação e escolhas sem rotular e de quando vale procurar ajuda. É informativo e não substitui o acompanhamento profissional.
Por que a pergunta “quem eu sou?” aparece tanto na adolescência?
A adolescência é uma fase de muitas mudanças ao mesmo tempo: o corpo, os hormônios, as relações com a família e com os colegas e a expectativa de decidir sobre o futuro. O serviço de saúde do Reino Unido (NHS) lembra que a busca por identidade, a pressão dos colegas e o desejo crescente de independência fazem parte do crescimento e podem deixar a fase confusa para o próprio jovem.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também cita a pressão para se adequar aos colegas e a exploração da identidade entre os fatores que podem aumentar o estresse nessa etapa. Experimentar estilos, ideias, grupos e interesses é, em geral, uma forma de testar quem se é. Isso não significa que o adolescente esteja “perdido”.
Como a pressão do grupo e das redes influencia?
Pertencer a um grupo é uma necessidade importante na adolescência. A OMS considera que a qualidade das relações com os colegas é um fator importante para a saúde mental. O problema surge quando pertencer exige abrir mão de quem a pessoa é: rir do que não acha graça, esconder gostos ou concordar com tudo para não ser excluída.
A OMS também menciona que a influência da mídia e as normas de gênero podem ampliar a distância entre a realidade vivida pelo adolescente e as expectativas que ele sente sobre si mesmo. Nas redes, a comparação constante com imagens editadas e padrões de corpo e de sucesso pode reforçar a sensação de “não ser suficiente”. O texto sobre ansiedade e redes sociais aprofunda esse ponto.
- Mudar de jeito ou de opinião conforme o grupo, para evitar rejeição.
- Medo de ficar de fora ou de ser zombado(a) por ser diferente.
- Comparação constante com colegas e influenciadores.
- Dificuldade de dizer “não” sem sentir culpa.
- Sensação de que não pode mostrar quem é de verdade.
Qual a relação entre identidade e autoestima?
Quanto mais claro o adolescente está sobre seus valores e gostos, mais firme costuma ser sua autoestima, e o contrário também é verdadeiro. O NHS explica que professores, amigos, irmãos, pais e a mídia podem moldar como nos vemos, muitas vezes desde a infância, e que a dificuldade de corresponder às expectativas dos outros ou às próprias pode diminuir a autoestima.
Algumas atitudes pequenas ajudam, segundo o NHS: conversar consigo como se falaria com um amigo na mesma situação, fazer uma lista de qualidades e de coisas boas que os outros dizem, cercar-se de pessoas que valorizam o jovem e praticar a assertividade, inclusive dizer “não” quando necessário. Mais sobre o tema está no texto sobre autoestima.
E as dúvidas sobre orientação sexual, identidade de gênero e escolhas?
Dúvidas sobre orientação sexual, identidade de gênero, curso, carreira ou religião podem aparecer ao mesmo tempo e pesar muito, principalmente quando o jovem teme a reação da família. A OMS aponta que adolescentes de minorias étnicas, sexuais ou de outros grupos discriminados correm maior risco para a saúde mental por causa de estigma, discriminação ou exclusão. Isso ajuda a entender que parte do sofrimento vem do estigma e da exclusão, e não da identidade em si.
No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), por meio da Resolução nº 01/99, estabelece que a sexualidade faz parte da identidade de cada pessoa e que práticas homossexuais não constituem doença, distúrbio ou perversão. Em uma psicoterapia ética, o espaço é para escutar, acolher e compreender, e não para julgar ou “corrigir” quem a pessoa é.
Do lado das escolhas, a pressão por decidir cedo costuma ser grande. Um curso ou uma profissão não definem por completo quem alguém é, e mudar de ideia faz parte do processo.
Como a família pode acolher sem rotular?
Acolher não é concordar com tudo nem saber todas as respostas. É oferecer escuta e respeito enquanto o adolescente se descobre. O NHS recomenda partir do princípio de que o jovem tem bons motivos para o que faz, perguntar com curiosidade em vez de rotular e manter a calma diante de explosões, que muitas vezes expressam confusão.
- Escute sem corrigir: deixe o adolescente terminar antes de opinar.
- Evite frases como “isso é uma fase” quando ele estiver falando com seriedade.
- Não apresse definições: ele pode precisar de tempo para entender o que sente.
- Respeite o sigilo: o que foi contado em confiança não deve ser divulgado a outras pessoas sem o consentimento dele.
- Evite comparações com irmãos ou colegas.
- Demonstre afeto de forma clara: “eu te amo e estou aqui” vale mais do que qualquer opinião.
Como a TCC pode apoiar o adolescente
A terapia cognitivo-comportamental parte da ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos se influenciam. Segundo o NHS, ela ajuda a questionar pensamentos e crenças pouco úteis, a notar emoções e sensações sem reagir de imediato e a mudar comportamentos.
Na adolescência, isso pode significar identificar pensamentos como “preciso ser como os outros para ser aceito(a)” ou “se eu mostrar quem sou, vão me rejeitar”, examinar o quanto eles se sustentam nos fatos e experimentar, aos poucos, atitudes mais autênticas. A terapia não define quem o adolescente é nem direciona suas escolhas: oferece um espaço de escuta e ferramentas para lidar com a ansiedade, a autocrítica e o medo de decepcionar. Pode ser feita por terapia online, com os combinados de sigilo explicados no início.
- Identificar pensamentos que alimentam a insegurança e a autocrítica.
- Reconhecer valores, interesses e limites próprios.
- Treinar formas de dizer “não” e de expressar opiniões.
- Lidar com a comparação e com o medo de rejeição.
- Fortalecer a autoestima com experiências concretas.
Quando procurar ajuda profissional
Vale procurar um psicólogo ou psicóloga quando a insegurança, a tristeza ou a ansiedade duram semanas, afetam o sono, a escola ou as amizades, ou quando o jovem se isola, evita situações sociais ou sofre com rejeição, zombaria ou medo de ser descoberto(a). Em alguns casos, a avaliação médica também é necessária. No SUS, o acolhimento pode começar na unidade básica de saúde ou em um CAPS.
- Tristeza ou irritação que não passam com o tempo.
- Isolamento, queda na escola e perda de interesse nas atividades.
- Sofrimento intenso por rejeição, bullying ou medo de ser descoberto(a).
- Autocrítica muito dura e sensação de não valer nada.
- Pensamentos de morte ou de se machucar.
Perguntas frequentes sobre identidade e adolescência
É normal o adolescente mudar de estilo e de amigos o tempo todo?
Em geral, sim. Experimentar estilos, grupos e interesses é uma forma de testar quem se é. O NHS lembra que a busca por identidade e a pressão dos colegas fazem parte do crescimento. Mudanças acompanhadas de sofrimento persistente merecem conversa.
Como lidar com a pressão do grupo?
Conversar sobre o que o jovem sente, treinar formas de dizer “não” e fortalecer a autoestima ajudam. Ter ao menos uma relação em que ele possa ser quem é também protege.
Meu filho ou minha filha está com dúvidas sobre a orientação sexual. O que fazer?
Escutar com respeito, sem rotular nem apressar definições, e deixar claro que ele ou ela pode contar com você. O CFP afirma que práticas homossexuais não constituem doença, distúrbio ou perversão. Se houver sofrimento, um psicólogo pode oferecer acolhimento.
A terapia vai dizer quem meu filho é?
Não. A psicoterapia não define a identidade de ninguém. Ela oferece um espaço de escuta para que o adolescente explore pensamentos e sentimentos no próprio ritmo, com respeito às suas escolhas.
Como saber se é uma fase ou algo que exige ajuda?
Observe a duração, a intensidade e o impacto no sono, na escola e nas amizades. Tristeza, isolamento ou irritação por semanas, ou qualquer pensamento de se machucar, justificam procurar um profissional.
Fontes e referências
- OMS — Adolescent mental health (nota informativa)
- NHS (Reino Unido) — Coping with your teenager
- NHS (Reino Unido) — Raising low self-esteem
- Conselho Federal de Psicologia — Resolução CFP nº 01/99
- NHS (Reino Unido) — Cognitive behavioural therapy (CBT)
Este texto é informativo e foi escrito pela psicóloga Elane Cruz (CRP-03/21274). Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individualizado. Em caso de dúvida sobre sua saúde, procure um profissional.


